sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O Miojo Eleitoral: a Política como Mercadoria


Um dos bordões mais citado nas esdrúxulas campanhas eleitorais e cobertura jornalística pelos diferentes canais de mídia é a patética associação entre eleição para prefeito e síndico. Como se fosse farinhas políticas do mesmo saco de maldades, este tipo de análise esterilizada da política passa para o desatento "cidadão" que seu título de leitor serve para eleger o síndico de plantão. A TV Globo através do seu Jornal Nacional chegou até mesmo fazer uma série de reportagens buscando falsamente comparar as eleições para prefeito deste ano à de um síndico de algum prédio de meia-dúzia de condôminos. Aliás, mote excelente para os candidatos a rapinagem ou usurpação do erário público se metamorfosear em suas falácias eleitoreiras sem a menor preocupação da construção política que o cargo de prefeito deveria exigir de fato.


Outro fato que já vem sendo um lugar-comum é a mesmice pirotécnica do milionário marketing eleitoral. Não faz muita diferença comprar um sabão em pó ou votar num candidato à algum cargo público: a propaganda mercadológica é a mesma. Tudo é tão cretinamente clonado que parece difícil distinguir quem é esquerda ou direita no espectro político. Sim, não vamos cair nas lorotas neoliberais que o fim das fronteiras ideológicas acabou e agora tudo se passa por um "novo horizonte político"... As premissas ideológicas neoliberais são tão consistentes quanto o derretimento das bolsas de valores pelo mundo à fora com selo "Made in USA". Bobagens demagógicas à parte, o caso das eleições paulistas é emblemático.


Marta Suplicy e Gilberto Kassab travam um embate de números bem ao estilo das campanhas do "rouba-mas-faz" de Paulo Maluf: os macro-números das idílicas promessas. Ambos prometem uma quantidade infinitesimal de obras e serviços desconexos da realidade e numa competição em busca do Santo Graal do altruísmo paulistano. O confronto se acirra quando se é para ver quem “já fez mais por São Paulo”. Ótimo para o “síndico” Kassab e péssimo para o Partido dos Trabalhadores (PT) de Marta entrar neste estúpido jogo folclórico a la Maluf. Gilberto Kassab dos Democratas (DEMO), atual sigla do latifundiário partido de coronéis do antigo Partido da Frente Liberal (PFL) e extensão do braço político que apoiou o regime militar, é uma daquelas raposas políticas que adere a qualquer coisa para se manter no poder. Nestas eleições, Kassab se esforça para posar a todo o momento de Virgem Santa Imaculada, mas dissimula que trabalhou para Paulo Maluf e seu antigo boneco político, o desastroso ex-prefeito Celso Pitta. A votação do atual prefeito Kassab, além de usar a máquina pública para fazer sua propaganda pessoal, sua extensa votação conquistada no primeiro turno das eleições e nas favoráveis pesquisas eleitorais do segundo turno só esta sendo possível devido a sede incontrolável de poder do governador José Serra que além de sabotar a campanha do tucano Geraldo Alkimin de sua legenda partidária, apoiou Kassab ainda no primeiro turno. O governador, como sempre, bem ao estilo tucano, faz uma coisa de depois nega que fez ou vice-versa. Vale também lembrar que o arrogante e camicase conservadorismo típico da classe média paulistana é um peso considerável na desequilíbrio da balança.


Kassab, um desses parasitas de gabinete que destila o puxa-saquismo político para sobreviver e reproduzir assexuadamente. Ancorado na lascívia eleitoral de Serra, deu as costas para seu antigo padrinho político, Paulo Maluf, e caiu na plumagem dos tucanos. A eleição para prefeito de Serra, em 2004 (alguém se lembra?) foi apenas um trampolim para chegar ao governo do Estado e alavancar sua candidatura ao Palácio do Planalto em 2010. Unidos no plano nacional desde o primeiro governo de Fernando Henrique e amplamente aderente no governo de São Paulo desde Mário Covas, PSDB e Frente Liberal, vale lembrar que existiu até um mal-estar inicial na aliança paulistana entre tucanos e PFL na campanha de 2004 em torno no nome de Gilberto Kassab como vice-prefeito na chapa do então candidato José Serra. Porém, como tudo na política do toma-lá-dá-cá, as coisas se assentaram e nada que uma bela e farta distribuição de cargos e benesses não agradassem as famélicas partes descontentes. É mais do que interessante para Serra a vitória do seu atual boneco de ventrículo, Kassab, uma vez que o PSDB se manterá na unificação tucana do poder em São Paulo e pavimentando com mais vigor a estrada do imenso ego do governador para pousar em Brasília em 2010.


Já o PT de Marta com uma campanha recheada de efeitos mercadológicos e pirotécnicos contribuiu para a campanha do seu adversário. Pouco adiantou a ilustração do presidente Lula na campanha de Marta. Kassab, tal como um sabonete, é um produto do marketing político e ponto final. Quando o PT transforma sua candidata numa garota propaganda do Bom-Bril político das mil e uma utilidades, cai na vala-comum qualquer diferença entre a política necessária para uma cidade e os devaneios sensacionalistas desembrulhados nas cabeças dos marqueteiros de plantão.


Na democracia de representação do capital, o poder financeiro é fundamental para a eleição de seus candidatos. Os nomes não surgem apenas por acaso como brotam chuchu entre a cerca do quintal (sem fazer alusões ao apelido do enjeitado tucano, Geraldo Alkimin). Na esfera da política como mercadoria, praticamente não é interessante discutir as abissais construções da desigualdade que reina absoluta numa cidade como São Paulo. Entre um clique do fotógrafo e uma peça publicitária, é melhor pavimentar com uma fina casca de asfalto uma rua sem esgoto encanado, beijar uma criança desnutrida e pousar com largo sorriso para os holofotes da televisão do que realmente tocar nas atávicas estruturas socioeconômicas da crueldade urbana.


Nas eleições paulistanas, a mesmice estéril continua a germinar a todo vapor na votação do novo “síndico”. Chegam-se ao absurdo dos candidatos brigarem pela paternidade da mesma promessa eleitoreira. E na esteira do teatro dos absurdos, entre tantas de suas demagogias, o prefeito Kassab apareceu em público e depois virou jingle de campanha, a “promessa” que jura aos quatro ventos que a passagem de ônibus não irá subir em 2009! Todavia, oculta da população o quanto irá disponibilizar dos generosos subsídios para alimentar as quadrilhas organizadas que tomou conta do sistema de transporte público da cidade.


A política mais uma vez se torna vítima da sede insaciável pelo poder a qualquer custo e dá vazão para a construção mercadológica quando as necessidades públicas são produtos para consumo individualizado, imediato e descartável. Resta então ao eleitor desatento, colocar o miojo eleitoral na urna com cara de freezer, marcar quarto anos e apertar o botão. E procurar então ficar esperando bem acomodado na cadeira...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Resistência ou Resignação? [ 1a. Parte ]


Ensaio para a biópsia do capital e a sociedade de controle do (i)material

Vivemos numa era de conflitos. Cínicos, subterrâneos ou psicológicos. O alardeado homem moderno não é mais do que um tenaz serviçal atávico do tempo, atado pelas construções de um materialismo vulgar e consumista, aliada há uma dinâmica pseudo-erotizada do seu self. Os apegos desmedidos pelos elementos narcíseos constituem em um invólucro dentro de uma pós-modernidade que cultiva o libelo individualista dentro dos nichos ou grupos de indivíduos que anseiam uma socialização. O que trata nossos atos e nossas ações? Como entender o homem dentro da esfera socioeconômica movido pelos seus desejos narcíseos e antropofágicos?


Para o dicionário Houaiss, a expressão “resignação” é traduzida entre outras possibilidades similares como sendo a “submissão à vontade de alguém ou ao destino” ou ainda, “aceitação sem revolta dos sofrimentos da existência”. Tudo parece ser inevitável quando abrimos os jornais da grande mídia pela manhã ou assistimos os noticiários televisivos. O mercado é a democracia liberal são os braços de um sistema quase absoluto e que tudo deve ser regido em sintonia com esta superestrutura simbólica e material. A aceitação passiva de um dado fenômeno é a amputação de qualquer possibilidade a ser realizada em um futuro próximo ou distante. Aceitamos a inevitabilidade quase divina que nossas vidas devem ser regidas por parâmetros os quais um punhado de indivíduos impõe subliminarmente ou não para todo um contingente social.


Quais os resgates abissais possíveis dentro de um universo de resignação? Dentro de uma esfera social onde se repercute ações individualistas sobre um coletivo, sejam passivas ou não, subentende-se a aceitação ou o descarte com maior ou menor grau de interação. Quando se opta pelos valores munidos pelo desejo de auto-satisfação à custa do outro, o que importa para este indivíduo é a satisfação plena e imediata do seu próprio self. É possível detectar implicitamente uma variante do “dilema do prisioneiro” em busca da maximização do prazer e minimização do desprazer: ou ajo agora e “lucro” neste momento, ou fico aguardando uma expectativa que possa vir a ser um desprazer posterior. O ato que permeia tal ação é o imediatismo que extrapola as considerações a respeito do outro a sua volta. Toda ação humana é movida pelas tentativas de maximizar seu desejo, seja ele qual for sua natureza, e ampliar as dimensões do seu objeto. Tal característica é intrínseca e constitui no rol de alicerces psicológicos de homens e mulheres, aflorados ou minimizadas dentro da estrutura social os quais são inseridos.


Uma das características mais sedutoras das estruturas psicológicas do capitalismo é o seu inigualável poder de projetar a sensação de erotização e liberdade sem limites do individuo. O “livre mercado” é a externalização e escancaramento do objeto pelo qual um grupelho de capitalistas se aglutina visceralmente nos ciclos dinâmicos da economia em benefício da maximização dos seus próprios lucros. O objeto aqui pode ser visto como sendo a capacidade praticamente ilimitada de se obter a multiplicidade ou a reprodutividade exponencial do seu patrimônio. Aliás, o mais importante deste sistema de reprodução insólito é o replicar dos lucros se movendo assimetricamente com a diminuição dos custos de operação ou transição. Nada é feito altruistamente para o coletivo, exceto o que for possível prolongar a exponenciabilidade do seu capital. Aqui a democracia liberal se torna um mito quase anedótico, uma vez que é não é o regime político que poderá frear a volúpia capitalista, e ao contrário do que geralmente se prega em tempos de liberdade burguesa, foram nas grandes ditaduras da história que muitos grupos econômicos alcançaram lucros exorbitantes apoiando regimes fascistas e colaborando para ceifar vidas e segregar nações. Mais uma vez, o objeto aqui são as condições materiais de reprodução do capital privado e não um locus vivendi em prol de uma estrutura que possa beneficiar a todos dentro de uma sociedade.


O esgarçamento dos elementos narcíseos é fundamental para a consolidação das estruturas do moinho que reinventa as condições de reprodutibilidade do capital. Neste sentido, a resignação é essencial para que em nenhum momento haja uma resistência, desconforto ou indignação por parte dos que estão do lado de fora destas estruturas e nada possa atrapalhar o “bem-estar” material de alguns contra a pauperização consentida dos demais indivíduos. A socialização material somente é consentida a contragosto nestes casos apenas como uma “válvula de escape” objetivando que as massas e seus descontentes não representem alternativas plausíveis que rompam drasticamente com o paradigma socioeconômico que está prevalecendo no momento. Aceitação plena e sacerdotal entre os atos de ser um assalariado ou “semidivinamente” vir a ser postulado como “patrão” são elementos vitais para reconstruir a cada momento de crise ou dificuldade dos ciclos econômicos a hegemonia do capital sobre qualquer levante dos resistentes. O que está em jogo de fato é a manutenção a todo vapor das regras estratificadas do status quo vigente e a luta de classes pode assumir diversos outros parâmetros, mas nunca deixada de lado ou desprezada sua validade.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Os Limites da Perversão Humana: Pornografia, Internet e Impunidade


Quarta-feira à noite, recebo um telefonema de um amigo e pergunta se estou conectado à rede. Digo que sim. Ele envia um link que nitidamente indicava ser de um site de pornografia e com a mensagem: Apenas abra! A página é lentamente carregada e surgem as fotos. Ao olhar o rosto claramente dopado da garota em poses extravagantemente pornográfica, vejo imediatamente que a suposta “atriz” do “ensaio fotográfico” era uma colega nossa da época do Instituto de Física (IF-USP). Pergunto ao meu velho amigo do IF-USP de onde ele achou “aquilo” e a resposta dele foi lacônica: “Na rede, oras!”.


Qual origem destas fotos? A questão se remete há alguns anos atrás, onde esta colega foi fotografada em poses pornográficas e boa parte da faculdade “à boca pequena” ficou sabendo. As imagens da garota circulam velozmente anexas nas mensagens de correio eletrônico. Pelo que fiquei sabendo à época, após a divulgação das suas imagens, ela simplesmente desapareceu do curso. Desnecessário dizer que os motivos são claramente óbvios. Causa estranheza que as mesmas fotos de tempos atrás, agora reaparecem em tamanho maior e com seus nuances hospedadas num site de pornografia. Dessa maneira, o que circulavam informalmente nos e-mails de anos atrás, se tornou hoje mais uma atração turística do site. A pergunta é muito clara: como estas “coisas” podem acontecer?


Assim como quase sempre 2 e 2 são 4, é de notório saber que a rede mundial de computadores é um fluxo contínuo de informações das mais variadas fontes. Não existe uma clara definição entre o que é conhecimento, informação ou simplesmente futilidade e crime. No caso destas fotos citadas, por detrás da suposta “atriz pornô”, havia uma garota muito simpática e tímida. Na época, tive a oportunidade de cursar uma disciplina na mesma sala dela. Não tínhamos praticamente nenhum contato direto, mas acredito que não era uma garota aderente às badalações e festinhas do cabide. Muitas vezes, namorados, “ficantes” de um ou meia-dúzia de dias, parceiros estáveis ou mesmo maridos, conduzem sua parceira às cenas de nudez ou sexo explícito documentadas via imagens ou filmes. Não raro o acompanhamento de bebidas alcoólicas e também drogas. Neste ritual de orgia íntima e suposta sensualidade, o parceiro aproveita oportunidade para destilar seu voyeurismo midiático. Os resultados são cada vez mais crescentes os casos de mulheres comuns em posições eróticas ou simplesmente pornográficas expostas gratuitamente na internet. Para as vítimas desta modalidade de crime, os prejuízos psicológicos, morais e materiais são incalculáveis.


A intimidade do “cidadão comum” desvelada pela rede mundial de computadores registra um perfil de agressão moral onde quase sempre passa despercebido das autoridades policiais. Os casos que realmente chamam mais a atenção são os derivados da pedofilia, combatidos com mais veemência e ocasionalmente derivam prisões dos seus criminosos. É importante buscar compreender o perfil deste tipo de criminoso da alcova e suas práticas.


Muitas vezes, um simples “choppinho” pode render muitas dores de cabeça além da obviedade. Um barzinho, sorrisos, a troca de olhares típicos dos galanteadores de rodeio conduzem suas vítimas cerceadas a um jogo de sedução onde invariavelmente terminam no leito de alguma cama. Se misturar alguns copos de bebida alcoólica (e muitas vezes, alguma droga “leve” como o cigarro da “social” maconha), já é possível criar um clima de despojamento e intimidade entre a vítima e o criminoso. Neste momento de suposta sedução, o criminoso pede para a vítima se “soltar mais” e começa o festival de cliques ou mesmo filmagens longe das lentes hollywoodianas. O exibicionismo é uma navalha de fino corte. Celulares sofisticados com câmeras cada vez menores e recursos mais potentes são ótimos instrumentais deste tipo de crime. Quando a vítima se recupera da ressaca, perceberá que a dor-de-cabeça só estará começando ao descobrir que naquela noite o homem que a levou para a cama despejou toda a sua privacidade na internet. Casos também ocorrem com os parceiros muito bem conhecidos da vítima e podem também resultar em coação ou chantagem por parte do criminoso.


Não existem limites para a perversão. O que acredito ser o modus operandi psicológico mais comum deste tipo de delito descrito até aqui é a perversão sádica atrelado a um profundo menosprezo da condição da vida humana. Neste caso, entendo que é possível encontrar as raízes das ações regatando alguns elementos da Psicanálise no que tange ao estudo das perversões.


A palavra perversão deriva do verbo latino
pervertere e significa tornar-se perverso, corromper, desmoralizar, depravar. Seu emprego não é privilégio da Psicanálise, sendo também empregado no campo da Psiquiatria e Sexologia, ora de maneira pejorativa ora valorizando-as, para designar as práticas sexuais consideradas como desvios em relação à norma social.


Segundo a análise de Sigmund Freud, existem dois tipos de perversões: as
perversões do objeto e as perversões do alvo. As perversões do objeto foram por ele definidas como uma fixação num único objeto em detrimento dos demais. Logo, incluiu nestas as relações sexuais com um parceiro humano (auto-erotismo, incesto, homossexualidade e pedofilia) e as relações sexuais com um objeto não humano (zoofilia, fetichismo, travestismo). Nas perversões do alvo, distinguiu três espécies de práticas: o prazer visual (exibicionismo), o prazer de sofrer ou fazer sofrer (sadismo e masoquismo) e o prazer pela superestimação exclusiva de uma zona erógena: ou da boca ou do aparelho genital.


Uma sociedade, por mais hipócrita que seja na sua essência, é definida em sua aparência por um conjunto de normas, regras e condutas sociais. Uma sociedade castradora condiciona privadamente que seus elementos constituintes libertem suas pulsões sexuais de alguma maneira e sob algum aspecto. O voyeurismo contido nos milhares de páginas de sites de “relacionamentos” ou “comunidades” ao estilo do popular Orkut na internet é uma pequena amostra da associação entre imagens e ego. A exibição sumária do corpo, pedaços de intimidade ou insinuações fetichistas e sua exposição ao público denotam uma mercantilização da condição humana. Neste campo minado que é a construção do desejo e libido, são elementos que permitem externalizar ou internalizar as pulsões sexuais. O ato de exibir as imagens da vítima é uma forma do criminoso recuperar e externalizar sua função do falo, e sob este aspecto, projetar seu “poder erógeno” por todas as conexões de rede do planeta.


A hipersexualidade digitalizada constitui um parâmetro a ser estudado nas interações provenientes das pulsões sexuais. Por mais que seja difícil a detecção da autoria dos crimes sexuais que movimentam as conexões de rede, é importante ressaltar que o aparelho jurídico também precisa melhor se preparar para coibir e punir práticas criminosas que afrontam moralmente a dignidade da vida humana. Os proprietários de sites de hospedagens onde são armazenadas as imagens das vítimas também precisam ser responsabilizados como co-autores destes crimes quando não fiscalizam, tardam ou impedem a retirada do material criminoso de seus computadores. A hiperexposição sexual da vítima nos meios eletrônicos deve se entendida como um crime tão pernicioso quanto os praticados no campo da pedofilia e demais crimes da rede mundial de computadores.


Os crimes silenciosos praticados na alcova de lares, motéis e lugares ermos são os mais difíceis de serem desvelados. Muitas vezes, mesmo sabendo da autoria do crime, a vítima por medo, receio ou vergonha não presta queixa contra o agressor. Os crimes de agressão física não diferem dos crimes de exposição digital das intimidades de sua vítima. Neste caso, a perversão compactua com a impunidade resultando assim um terreno tranqüilo e fértil para a condução silenciosa deste tipo barbárie criminosa.


Enquanto quase todas as discussões sobre crimes digitais estão na esfera da retórica, as fotos íntimas da colega do IF-USP continuam livremente correndo soltas através das várias conexões da rede mundial. E quem sabe, no caso específico desta garota, possa servir de alerta para algumas mulheres pesquisarem muito bem quem é postulante à galã da alcova de seus devaneios amorosos antes de tirarem a primeira peça íntima do corpo. Claro que a vítima não tem culpa de ser vítima, infelizmente a cautela ainda é um presságio para uma vida sem correr os riscos de um inadvertido voyeurismo digitalizado.


(É importante ressaltar que se conselho rendesse realmente algum dividendo, o autor deste blog já teria sido, há muito tempo atrás, sócio majoritário da Microsoft!)

terça-feira, 24 de junho de 2008

O drama dos refugiados: a globalização da barbárie


Uma face das mais trágicas e que passa praticamente despercebida pelos teóricos entusiastas da globalização "indolor" é o drama dos refugiados que perambulam pelo planeta. Sem lar, pátria ou agregado material, milhões de pessoas são expulsas de sua terra natal e são obrigadas a imigrarem para outros locais, países ou continentes. Seja por conflitos bélicos, contingências políticas ou catástrofes naturais, o número de refugiados não pára de crescer. Segundo relatório das Nações Unidas divulgado na semana passada pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas Para Refugiados), "em 2007, o número de refugiados totalizou 37,4 milhões, dos quais 11,4 milhões estariam fora de seus países e 26 milhões seriam refugiados internos, [...] com estatísticas de mais de 150 países" (BBC BRASIL, 2008).



Esse enorme contingente populacional de transeuntes apátridas deixa explícita a gravidade da situação. Também é possível tecer considerações sobre o fim das guerras clausewitzianas, ou seja, os conflitos bélicos clássicos entre povos ou países (conceito de Estado-Nação) com exércitos e munição estatais. As guerras travadas no século XXI serão assimétricas, disformes e desprovidos de uma arquitetura ideológica definida. Surgem então as milícias mercenárias e fortemente armadas se transformando em exércitos privados com imunidade diplomática oriundas de empresas "globalizadas" de segurança trabalhando “legitimamente” em nome de governos de Estados-Nações ou corporações empresariais estatais ou privadas (caso explícito das empresas privadas de segurança operando na ocupação estadunidense no Iraque). Não há fronteiras para o capital e tampouco no emprego máximo da força bruta com chancela governamental.



Zygmunt Bauman classifica este movimento de refugiados como a face do "refugo humano" ou “seres humanos refugados”, ou seja, seres descartados dos processos produtivos e do progresso técnico material. Os refugiados são marginalizados, segregados e chegam a serem perseguidos e até mesmos assassinados como corre em alguns países onde buscam asilo (destaque na Alemanha e África do Sul). A questão dos “estrangeiros” é um dos grandes problemas a ser encarada pela União Européia cujo alguns países-membros já estão adotando políticas de anti-imigração com o retorno de controvertidas leis cada vez mais severas, agressivas e xenófobas. Com o declínio da economia ou queda do poder aquisitivo das populações nativas de algumas regiões européias e, por conseqüência, a ampliação do desemprego local (com raízes globalizadas) os ânimos se acendem e se brutalizam contra refugiados e imigrantes.



É importante destacar que em muitos casos, a figura do refugiado e do “imigrante ilegal” já não existe definições que possam margear alguma diferenciação. Os dramas vividos na fuga para um ambiente menos hostil e com alguma possibilidade de sobrevivência são os elementos constituintes destes dois grupos cada vez mais simétricos e desprotegidos. A ascendente onda do retorno do fantasma da xenofobia, o flerte com o autoritarismo e a atuação de grupos de extremistas na Europa já pode ser considerada outro grave e inquietante problema a ser combatido num continente assolado brutalmente por duas guerras totais no século passado e governos despóticos. Para o psicólogo Oliver Decker, "sempre que a obturação do bem-estar se esfacela, tradições antidemocráticas voltam a se manifestar no vazio resultante" (Deutsche Welle, 2008).



Não existem soluções a curto ou médio prazo para a amortização do drama destas populações peregrinas. Pragmaticamente, a questão política é o caminho para entendimento do encontro de possíveis saídas, porém são as profundas disparidades regionais e globais que polvilham guerras e conflitos socioeconômicos de toda ordem possível. Não existirão tampouco soluções pontuais ou de caráter provisório que farão minimizar a gravidade da situação. Somente uma nova ordem política e meritória de consideração e confiabilidade para buscar mediar conflitos na esfera das Nações Unidas e a efetiva criação de uniões regionais de países, como é o caso da União Européia. É fundamental deslocamento das grandes questões econômicas e comerciais do planeta da Organização Mundial do Comércio (OMC) para o âmbito político das Nações Unidas. Não é possível que o planeta continue a conviver com guetos de miséria e mitigação econômica onde arvoram guerras e disputas fratricidas. Neste cenário sombrio, multiplicam-se velozmente os números de vítimas silenciosas e indefesas cujo destino é a degradação e ostracismo globalizado.


“LIVRE CANTAR”

O governo brasileiro possui o programa para abrigo de refugiados o CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados) em parceira com o Acnur. Segundo o ACNUR, o Brasil abriga aproximadamente 3800 refugiados de cerca de 70 nacionalidades diferentes. Para destacar o trabalho destas organizações foi lançando sem fins comerciais o CD "Livre Cantar", uma coletânea de músicas compostas e executadas por refugiados que vivem no Brasil. Todas as músicas podem ser “baixadas” gratuitamente no formato MP3 no endereço http://www.grupomirrage.com.br/blog.html. Destaco em particular o belo coral africano da faixa 5, “Lumilongi” e a faixa 10, “Clamor pela África”, uma bonita melodia e aparenta uma leve influência gospel em sua letra. Obviamente, que tais canções não irão estar sintonizadas nas rádios mercadológicas por não se enquadrarem no quesito “interesses comerciais”. Como diria o cantor Lobão, para tais rádios movidas ao interesse da indústria histriônica da alienação cultural, somente o “jabá” é aceito. Boa audição!


Referências:

BBC BRASIL. Refugiados e deslocados internos foram 37,4 milhões em 2007, diz ONU. Folha Online, 17/06/2008. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u413105.shtml. Acesso em 23 de junho de 2008.


BAUMAN, Zygmunt. Vidas Despedaçadas. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2005.


Deutsche Welle. Xenofobia é mais difundida na Alemanha do que se pensa. Deustsche Welle, 22/06/2008. Disponível em http://www.dw-world.de/dw/article/0,,3430238,00.html. Acesso em 23 de junho de 2008.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

De volta à barbárie: a luta pela existência no século XXI


Se um viajante perdido proveniente do século passado folheasse os principais jornais dos últimos meses certamente entraria em parafuso! O admirável mundo novo do neoliberalismo se defronta com problemas até então fadados às especulações surrealistas ou boletins de jornalecos comunistas: crise alimentar, energética e escassez de água potável. É o fim dos tempos? A priori não, mas é um indício dos dramas atávicos que a humanidade se defrontará no século XXI.

Esqueça as bobagens terroristas alardeadas pelos fascistas de Washington. A crise é muito mais séria que os demagogos falcões de George Bush semeiam pelo mundo. Os islâmicos não comerão criancinhas no jantar. Não são os árabes os “inimigos do ocidente civilizado”. É a barbárie o maior vilão do mundo que se julga civilizado. A guerra entre a miséria e os que ainda podem comer suscitará uma disputa fratricida pela sobrevivência. Países como Brasil, Índia e China que despontaram no cenário internacional contribuem para impulsionar uma série de demandas alimentares e energéticas. As rotineiras crises nas economias do chamado Primeiras Mundo fragilizam cada vez mais a hipotética ordem mundial via “mercados livres”, ou seja, um dos principais alicerces dos mitos pueris embarcados na globalização neoliberal.

A presente crise mundial é de superprodução e não o contrário. A demanda energética aliada à especulação oportunista está fazendo o barril de petróleo avançar a um patamar jamais imaginado em sua história para além dos 130 dólares. A corrida por substitutos plausíveis para a demanda energética se canaliza particularmente no totem messiânico do etanol. Neste caso, o Brasil entra no pário de uma forma muito desarticulada e marqueteira. Se por um lado, a Petrobrás anuncia descobertas de seguidas fronteiras de possibilidades reais de prospecção de petróleo, por outro o país parece flertar com idéia de ser um celeiro mundial do etanol. A questão não é banal e tampouco trivial: produzir energia ou comida? A opção não poderá ser feita apenas para suprir a demanda energética mundial, mas a realidade mais íntima da base histórica de produção brasileira que é a agricultura para alimentação e não commodity energética. A União Européia está voltada a proibir o etanol proveniente de cereais em troca da ampliação da produção de alimentos em suas fronteiras. Não é apenas uma questão de investimentos e ganância especulativa, mas de mera sobrevivência alimentar.

Por mais inverossímeis as teorias catastróficas de Thomas Malthus do século XIX, a realidade da escassez alimentar bate a porta de muitas regiões do planeta. Países com grandes fragilidades econômicas, notadamente vastas regiões do continente africano, já estão passando por um novo ciclo de fome e fragilidade alimentar. A especulação acaba elevando o preço dos alimentos e contribuindo para uma alta generalizada de gêneros básicos na gangorra do “livre mercado”. A tendência crescente da demanda faz “naturalmente” os preços se elevarem até atingir um novo patamar de equilíbrio. Todavia, a mera aplicação das premissas de oferta e procura não são suficientes para a estabilidade do equilíbrio e, em momentos de crise mais aguda, a tendência é que os preços continuem a se elevarem sem uma contrapartida em curto prazo que faça recuar ou minimizar sua curva de alta. A especulação desmedida pelo lucro dificilmente está explicitada nos “manuais” dos cursos de Economia embebidos no mainstream dos Chicago boys.

A política de “agrocombustíveis” deverá ser revista com urgência. O Brasil tem um papel fundamental no tabuleiro global das matrizes energéticas. É preciso ficar claro também qual o papel que o país deseja desempenhar no planeta, ou seja, um celeiro agrícola alimentar ou um imenso canavial para entender os desejos energéticos estadunidenses e europeus? Entendo que a Petrobras deveria se condicionada para preservar o mercado interno de energia e somente vender o excedente caso realmente fosse necessário. Defender o onírico “livre mercado” em épocas de crises somente é válido para os adeptos de cabeças impregnadas pelo entulho ideológico colonizado voltado para os interesses dos velhos mercados imperialistas.

Energia e alimentos cada vez mais se constituirão em modos de produção de interesses nacionais. Aliás, as matrizes energéticas sempre se consistiram dentro do rol dos interesses estratégicos dos grandes Estados Nacionais e a região do Golfo Pérsico é o mais explosivo cartão-postal para quem ainda duvida desta teoria. Aliado as questões a respeito do mercado energético, se encontra a escassez de água potável que em grandes regiões do planeta é outra tétrica realidade. A “guerra pela água” preocupa até mesmo as Nações Unidas que estão paulatinamente se mobilizando para entender melhor as causas e as conseqüências desta batalha trágica pela existência. O Brasil novamente é outro pólo desta matriz enérgica uma vez que debaixo do seu solo se situa o megacampo de água potável, conhecido com Aqüífero Guarani, e que não vem obtendo o devido estudo e tratamento por parte do governo.

Quem é o “dono” da Amazônia? Pouco a pouco a imprensa estrangeira, em particular o estadunidense, New York Times, vêm questionando os direitos de propriedade do estado brasileiro e nações vizinhas da área amazônica. Estas especulações não são gratuitas e são respaldadas por interesses de Estados imperialistas. Quando se dizia que os estadunidenses estariam de vigilância pela Amazônia, em geral, no Brasil era visto como “história de comunas” ou desdém similares. Hoje a realidade é bem diferente. Até mesmo, o “bom-moço” ambientalista e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, o democrata Al Gore, com sua aura “ongueira” já deixou claro que a Amazônia não pertence aos países que acomodam geograficamente suas fronteiras. O imperialismo não descansa, e também já se questiona a partição do Ártico e também a Antártida (fontes ainda não exploradas de energia no seu subsolo). Em nome evasivo dos “interesses do planeta”, vem aí o “eco-terrorismo”: dar o “verde” para quem pode controlar financeiro e militarmente a região, além de auferir maior poder de barganha mundial, ou seja, lotear a Amazônia para os interesses imperialistas.

O debate será cada vez mais acirrado assim como a guerra travada entre os que podem com mais eficiência ocupar e canabalizar os espaços de demanda energética e alimentar. Não podemos nos iludir apenas com a falácia que os “mercados auto-regulados” darão conta do “auto-ajuste” entre demandas e ofertas. Isto só acontece nos manuais de graduação dos cursos de Economia! O mundo não cabe dentro de um manual e tampouco a barbárie encontra limites na luta fratricida pela sobrevivência. Uma das questões que precisa ser enfrentada é a natureza dos processos de produção e consumo mundial. O esgotamento dos recursos naturais movido à uma desenfreada ganância por lucros fáceis e imediatos fazem colocar todo o desenvolvimento e progresso da humanidade em estado de choque. O modo de produção capitalista de consumo é na realidade o sistema de esgotamento sistemático que levará o planeta a exaustão.

Como todos sabem, os recursos são finitos na infinita ganância dos sistemas de produção de lucros sem fronteiras. Infelizmente, a guerra da barbárie entre a estupidez e a sobrevivência somente está começando. A mesma velha história nunca compreendida pelos homens: entre morrer e matar, ambos são realizados sem vencedores.

terça-feira, 25 de março de 2008

A Angústia na Hipermodernidade: Felicidade, Autofagia e Barbárie na Sociedade de Hiperconsumo



A felicidade é uma ilusão? Quase invariavelmente a passagem de Ano Novo, ano após ano, é sempre um espetáculo de mesmices. Um misto de falsas promessas, ilusões alimentadas e mais um bom número de pedidos irrealizáveis. Não é crime nos tornarmos cada vez mais indiferentes ao resto de tudo que não seja aderente ao nosso próprio umbigo. Crime é fazer do egocentrismo a arma fatal contra o outro. Gilles Lipovetsky em, “A felicidade paradoxal” (2007), argumenta que nunca na história do mundo ocidentalizado tivemos tantas oportunidades e acessos a tal felicidade como agora. No entanto, paradoxalmente ainda continuamos infelizes. É pertinente tecermos algumas considerações a esse respeito.

A idéia de hipermodernidade está associada a dois pilares básicos interdependentes, segundo Lipovetsky, o mercado liberal e a democracia burguesa. A hipermodernidade transpõe o intrincado mundo da pós-modernidade fomentando angustias adicionais para o ser humano. Por que não ser feliz na esfera da exuberância material? A resposta poderá estar diretamente ligada à construção do fantástico mundo do consumo de massa e suas frivolidades inerentes. A “civilização do desejo” arquitetada pelas sociedades liberais na segunda metade do século XX, esclarece Lipovetsky, marca o nascedouro de uma nova modernidade. Aparentemente pouca coisa mudou, “continuamos a nos mover na sociedade do supermercado e da publicidade, do automóvel e da televisão”, escreve Lipovetsky ressaltando o diferencial que transformou as normas sociais, a “revolução no consumo”, o “hiperconsumo” e sua unidade hiperindividualista básica, o “hiperconsumidor”.

Do iogurte, passando pelos mais íntimos sentimentos até à política, o mundo foi transformado através da esfera do consumo e do marketing. Consumimos de maneira histriônica toda forma de suvenir que se pode (e o que não se poderia!) colocar entre prateleiras e sobre o balcão: amor, orgasmo, medicamentos, cultura, ecologia, religião, ideologias e ódios. Como sintetiza Lipovestky, uma nova fase do capitalismo, “a sociedade de hiperconsumo coincide com um estado da economia marcado pela centralidade do consumidor” (Lipovetsky, 2007, p. 13). O consumo logo passa da necessidade fundamental de garantiria básica da existência humana para a ansiedade agonística e desesperada do hiperconsumidor.

Uma outra característica pertinente que alicerça nossa sociedade hipermoderna é a amplo apelo ao “descartável” ou “redundante”, e que pode ser conhecido como “refugo”. Zygmunt Bauman (2005) analisa estas construções sociais “líquidas” da pós-modernidade liberal e ocidentalizada. De sentimentos, telefones móveis a indivíduos, o refugo é algo que incomoda os indivíduos e que a sociedade desejar descartar de imediato. A autofagia pelo automatismo é reinante. O “hoje” já passou e queremos logo o “amanhã”. Como na velocidade dos cliques da internet de banda larga, a vida pós-moderna é na hipermodernidade um acontecimento imediatista. Quantas pessoas já não ficaram tensas por meros segundos até abrir uma correspondência por correio eletrônico? Meros segundos que para elas soam como um jazigo eterno!

No hiperconsumo daqueles que anseiam por afetividade, o amor e o gozo são igualmente fúteis e paradoxalmente com inúmeras possibilidades de conhecer “outras pessoas” na intricada cadeia de relacionamentos precários, autofágicos, evasivos e redundante frivolidade. Nunca na história das sociedades ocorreram tantas possibilidades das pessoas se conhecerem e, no entanto, a angústia, depressão e a quantidade de relacionamentos liquefeitos, diluídos e descartados são crescentes. Entendemos aqui a angústia no sentido clássico psicanalítico como forma de uma auto-proteção diante do desconhecido, inevitável ou inesperado na busca de uma sobrevida física e mentalmente (Emanuel, 2005). Erich Fromm descreve que “a experiência da separação desperta a ansiedade; é, de fato, a fonte de toda ansiedade” (Fromm, 1966, p. 26). Do sexo de ontem já saciado perdeu a graça em poucas horas é será trocado pela busca de outros genitais no dia seguinte. A angústia cresce de maneira desmesurada na ânsia de obter o idílico “par perfeito”. O descarte da parceria é logo feito quando já foi preenchido o gozo imediato. Os rótulos e os mitos da “parceria ideal” são deflagrados desde os bares de hordas pansexuais de lobos e lobas famintos na “caçada” aos sítios pagos de relacionamentos em meios eletrônicos. Desta maneira “[...] numa sociedade de caçadores, a expectativa do fim da caçada não é tentadora, mas apavorante – já que esse fim só pode chegar na forma da derrota e a exclusão pessoais” (Bauman, 2007, p. 112). A ansiedade é desencadeada pelo hiperconsumo de prazeres egocêntricos na multidão de gozos possíveis. Quando “os corpos são livres, a miséria sexual é persistente” (Lipovetsky, 2007, p. 17), o desejo nunca é saciado e o resultado dramático é a angústia. Consequentemente ocorre à depressão pelo vazio incomensurável e pela oferta frívola de relacionamentos fúteis e, em seguida, logo à tona a decepção. Quando o amor se reduz à um mero consumo de iogurtes light ou diet, o resultado é o eterno retorno ao vazio existencial jamais saciado e que ronda os medos mais profundos do seres humanos em sociedade. É um eterno recriar de uma ingênua ilusão autofágica da felicidade pela quantidade hiperconsumidora de parceiros. Na análise pertinente de Fromm, “numa cultura que prevalece a orientação mercantil, e em que o sucesso material é o valor predominante, pouca razão há para a surpresa no fato de seguirem as relações do amor humano os mesmos padrões de troca que governam os mercados de utilidades e trabalho” (Fromm, 1966, p. 21).

A sociedade de hiperconsumo desagrega as culturas de classe e promove a homogeneização do que Lipovetsky chama de “modelo consumista-emocional-individualista” para todos os segmentos etários. O hiperconsumo abarrotou as possibilidades das sociedades parirem e cuidarem de suas próprias crianças sem que elas não se transformem em futuros adultos hiperconsumidores dependentes químicos ou com profundas carências psicanalíticas. Na medida em que o consumo segmenta cada vez mais faixas etárias, excetuando as crianças na primeira infância, não existe mais exclusão dentro do fantástico universo do hiperconsumo. Fomentado a quintessência do consumo, as escolas de orientação mercantil promovem com algum estofamento cultural os futuros alunos hiperconsumidores. Por sua vez, os pais hiperconsumidores não querem mais ser responsáveis em solitude pela criação dos filhos e delegam à própria prole a divisão da educação. Em nome de uma equivocada retórica de “responsabilidade não-autoritária”, os pais “legais, bonzinhos e bacanas” estimulam seus filhos ao consumo e fazem deles os próprios hiperconsumidores. Movidas por um espetáculo da publicidade infanto-juvenil, crianças como “pequenos imperadores” ditam as regras para os pais do que comprar e decidem pelas suas mercadorias fazendo suas próprias escolhas. Logo, saciado o desejo imediato do “imperador-mirim”, os pais “compram a paz” e se deliciam momentaneamente na felicidade promovida pela indústria da diversão infanto-juvenil. Desta maneira, os pais procuram o auto-perdão por longas ausências ou negligencias sentimentais perante a prole, ao mesmo tempo em que acreditam cederem “pedagogicamente” um direito ao filho à felicidade, aos prazeres e ao individualismo narcisista.

Existe felicidade no trabalho? O “refugo humano” é um conceito mais profundo. O uso e o descarte de pessoas atiradas ao lixo. Os mundos do trabalho pós-fordista se constituíram numa miríade de ilações a respeito das estruturas trabalhistas. A informalidade em nome da “eficiência” neoliberal produziu variantes do emprego que podemos classificar em: o super-emprego, o subemprego, desempregado e a escória. O super-emprego é aquele onde o quadro de pessoal é “enxuto” em nome do pomposo da “reengenharia” (ou algum outro rótulo de falácias administrativas) e o trabalhador que sobrou ao expurgo é segregado a uma série de tarefas alucinadas e sobrecarregadas bem ao estilo “tudo-ao-mesmo-tempo-agora”. O subemprego se situa na marginalidade (geralmente é refém da “flexibilização do emprego”), pode ser o empregado que não tem segurado suas garantias trabalhistas da economia formal ou trabalhador de rua (ou seja, o popular “camelô”). O desempregado é aquele trabalhador pendular atemporal onde, em poucas semanas, ora alguma exercendo alguma ocupação com mínima renda, ora esta na busca interminável por emprego. A escória, essa massa amorfa e sem vida perante o mercado, é o descarte de pessoas que definitivamente não entrarão mais no mercado de trabalho, seja formal ou não. Para a maioria dos trabalhadores assalariados, a felicidade pelo emprego se tornou a mero alívio de alguma renda no final do mês. A felicidade faz a transubstanciação por um mero pedaço de pão diário e existem aqueles que “agradecem aos Céus” por isto! A maioria dos que se alimenta até enfartarem tem ojeriza os que nada tem para comer. A pobreza incomoda a paisagem e “suja” as cidades. Logo existe um alívio de felicidade quando moradores de rua, integrantes da escória, são banidos como cães das áreas nobres das grandes cidades. A felicidade burguesa é egocêntrica, esteriliza as ruas nobres eliminando a qualquer custo o refugo humano e pode desfilar com credenciais pitorescas de mercadorias de desmedido luxo alienado.

O hiperconsumo é um espetáculo do conforto. Aos que possuem poder aquisitivo pode consumir segurança e luxo descartáveis em ruas que são verdadeiros “bunkers de paz” em meio à dispersão da violência. O templo da felicidade do hiperconsumo de massa, o “shopping center” é o retrato da negação da cidade e dá a sensação de segurança e felicidade das compras com tranqüilidade. O consumo não é apenas uma amálgama entre necessidade e disponibilidade, mas comprar evasivamente se tornou um ato de prazer com características sexuais (em referência ao gozo freudiano). A felicidade diante de uma compra abstrata e utilidade pífia realçam as características de ansiedade do hiperconsumidor. O desejo de comprar cada vez mais torna o consumo como um ato de felicidade propriamente dita. O marketing de massa sabe exatamente destas características dos consumidores e exploram a exaustão o viés da angústia e o desejo pelo fetiche da mercadoria através da pasteurização e homogeneização das necessidades humanas: “Você precisa experimentar o produto “A”, porque “A” vai fazer sua vida mais feliz!”. Dessa maneira, a “felicidade instantânea” se configura em um autômato saciar da necessidade passageira e, por sua vez, a publicidade capta tão eloquentemente suas matrizes do adornamento da mercadoria como objeto simbólico constituinte de uma miríade de desejos consumistas. Assim que o desejo da aquisição for concretizado via cartão de crédito ou débito automático, uma nova carência surgirá e renovará todo o processo de angustia pela saciedade do consumo. O livre mercado não prioriza o que produzir ou vender, mas somente o que vai dar lucro e ponto final. Existem inúmeras retóricas politicamente correta a respeito da “responsabilidade social” das empresas, mas ninguém questiona, por exemplo, para situar alguns segmentos, qual a “responsabilidade social” dos fabricantes de armas, cigarros, bebidas alcoólicas, agrotóxicos e pesticidas, publicidade e empresas de agiotagem profissional de “micro-crédito”? Ainda existem os que defendem o uso maciço do hiperconsumo para garantir os famigerados “postos de trabalho”, mas nunca especificam as suas margens de lucros das empresas que ganham com os louros da mais-valia. A felicidade pelos lucros independe da desgraça alheia, afinal, para os arautos do neoliberalismo, a verdadeira “responsabilidade social” é do Estado, o resto é a vantajosa dedução dos “custos sociais” no imposto de renda de “pessoa jurídica”.

O hiperconsumo não poupa nem mesmo a religião que se transformou num nos espetáculos de dispersão cultural e socioeconômico mais evidente na era da globalização. Não é apenas a avidez pelo bem-estar material buscada ansiosamente pelo hiperconsumidor, “mas ele aparece como um solicitante exponencial do conforto psíquico, de harmonia interior, cujas técnicas do desenvolvimento pessoal são disso fundamentais testemunhas do desenvolvimento de um mercado da alma” (Ewald e Soares, 2007, p. 25). Na atual safra de seres humanos, o niilismo da fé é o paradoxo da busca frenética por Deus. Agora, não mais para a redenção contra os maus agouros do destino, mas somente o alívio das satisfações das emoções imediatas. Os templos da fé proliferam em todos os segmentos da sociedade prometendo a tal “cura espiritual” e todos os sortilégios da alma mediante a crença em Deus e o pagamento de dízimos religiosamente. Uma série de outras crenças, com ênfase nas religiões orientais, abarrota um leque de diversas opções para aqueles que carecem ansiosamente de “fé espiritual”, e que sua vez, nunca saciadas definitivamente pelo consumo materialista. Não é a toa que toda a depauperada literatura de “auto-ajuda” se consolidou como uma metástase dentro das livrarias e gerando grande parte dos lucros das editoras.

Não há ilusões perante a felicidade fabricada e preconizada pela sociedade de hiperconsumo. O homem hiperconsumidor possui um atávico niilismo existencial e devoto acirrado das veleidades do marketing de massa. Do morador de algum barraco em algum vilarejo de pau-a-pique aos sedutores palacetes da burguesia paulistana da região dos Jardins, todos são seduzidos pelo hiperconsumo com abissais poderes de compra. A vida na hipermoderna se tornou um fantástico mundo da aquisição de bens materiais, psicológicas, sexuais e sentimentais. É importante ressaltar os questionamentos de Erich Fromm quanto às supostas certezas de “mentalidade sadias” tão alardeadas orgulhosamente pelas sociedades ocidentalizadas: “Podemos estar tão seguros de que não nos estamos iludindo?” (Fromm, 1974, p. 17).Na hipermodernidade, a felicidade se realiza como mera ilusão e não será possível ser duradoura, mas apenas saciada momentaneamente a espera de uma nova e feliz aquisição mercantil mediado pelo hiperconsumo. Neste caminho da segregação entre os que consomem e os que assistem de barrigas vazias os outros consumirem, abrem-se lastros torrenciais para a escala sem precedentes de uma autofágica sociedade rumo à barbárie.



Referências bibliográficas

1. Bauman, Zygmunt. Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

2. Bauman, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

3. Fromm, Erich. A arte de amar. Belo Horizonte: Itatiaia, 5ª. Ed, 1966.

Fromm, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 7ª. Ed., 1974.

4. Emanuel, Ricky. Angústia. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.

5. Ewald, Ariane Patrícia e Soares, Jorge Coelho. Identidade e subjetividade numa era de incerteza. Estudos de Psicologia, 12(1), 23-30, 2007.

6. Lipovetsky, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

quinta-feira, 20 de março de 2008

ESTRANGEIRO NO MEU PRÓPRIO PAÍS: cenas de subserviência calhorda ou turismo acadêmico inútil?


Para que(m) serve(m) os congressos acadêmicos? Em tese, para o fomento do debate democrático, crítico e atualização dos mais diferentes níveis de informações e dados. Todavia, na minha avaliação, não foi a preocupação destas premissas que foi levada em conta no Regional Science Association International (RSAI) World Congress 2008, realizado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) entre os dias 17 e 19 de março. Um congresso cujo enfoque básico se assentava nos estudos econômicos regionais.

Fiz todos os trâmites normais pedido pela organização do evento e paguei a taxa de inscrição. No dia 18/03, cheguei ao local do evento para formalizar minha inscrição e pegar o crachá. Fui logo recebido por um sorridente "Hi!" da atendente com jeito e esboço do mote "faça o seu pedido" de uma conhecida cadeia de hambúrgueres transnacional. Após ter resolvido o problema a respeito do meu pagamento da inscrição (grande preocupação por parte dos organizadores!), recebi meu material. Destaco que o mais curioso foi a "caneta ecológica" feita de material reciclável e a sacola com “tecido ecológico” (a ostentação da hipocrisia do “ecologicamente correto”)! Percebi que todo o material impresso estava em inglês sem direito a nenhuma outra linha em português ou qualquer outro idioma. Perguntei a respeito do excesso de estrangeirismo dos livretos para uma moça do pessoal de apoio do evento e fui informado que tudo foi impresso e organizado na língua inglesa uma vez que o evento é "internacional”(!). Argumentei que para qualquer evento de porte “internacional” e com algum respeito trabalharia com duas línguas, uma nativa e outro idioma (que poderia ser eventualmente o inglês). Nada adiantou. Naquele momento, estava mais preocupado com a apresentação do meu trabalho que iria começar em menos de uma hora e resolvi ignorar o fato por alguns instantes. Péssima opção! Prova de que quando aceitamos passivamente a boçalidade o preço posterior sempre será muito alto.

Ao aproximar da sala onde seria minha exposição, fiquei sabendo que somente a língua inglesa poderia ser utilizada. Neste momento, como diz a expressão popular, “caiu a ficha”! De primeira mão, achei que era uma predileção arrogante por parte dos organizadores. Mesmo ainda insistindo em fazer a apresentação em português, fui informado novamente que de fato era imposição o inglês por ser um evento "internacional". Detalhe: não haveria nenhuma forma de tradução. Fiquei perplexo e surpreso com o fato, afinal de contas por mais internacional que seja o evento, estava no meu país da língua de Camões (apesar de nossos milhares de analfabetos)! Argumentei sobre a inverossimilhança da situação para alguns membros da equipe de apoio e todos diziam que somente o inglês era aceito para as apresentações. Indignado, fui levado até o professor que chefiava a organização do evento (que prefiro não citar o nome) e expliquei ao mesmo a situação. Ele com um ar de Pilatos, disse que "as pessoas que participam do evento pagaram para assistir as apresentações em inglês e que isto não seria alterado" e que ele "não poderia fazer nada" (Pensei: FEA-USP Turismo & Cia.?). Cada estrangeiro desembolsou para pagar a inscrição do congresso um valor de 300 euros (!) conforme informações do próprio site oficial do evento. E com sorriso quase de deboche recomendou "faça o que achar que pode"! Uma das promotoras do evento que estava ao nosso lado recomendou que eu "improvisasse" o inglês. Argumentei que não seria possível, uma vez que meu inglês estava mais próximo do ursinho "To Be" e que seria totalmente diferente preparar uma apresentação em português e imediatamente passar para o inglês em questão de minutos (eu não teria esta pirotecnia momentânea!). O mais curioso é que foi justificado pelo fato de não ter nenhuma forma de tradução: "sairia muito caro"!

Para tentar persuadir-me (e me fazer com que eu me sinta um verdadeiro otário diante do meu analfabetismo cultural!), fui informado que fato semelhante ocorreu com alguns outros participantes brasileiros do evento, mas alguns deles “deram um jeitinho” ou “decoraram o texto”. Trocando em miúdos, o que queriam dizer de forma mais educada era que eu era o único “chato” do congresso preocupado com questões tão “tolas”! Para variar, havia argumentado que para um evento internacional era fundamental ter algum tipo de tradutor tal como qualquer evento do gênero. Inútil! Naquele momento me senti em estrangeiro no meu próprio país e proibindo de expressar em minha própria língua materna. Diante dos acontecimentos decidi não apresentar meu trabalho e desisti de participar do evento. Uma das assessoras de comunicação disse que compreendia o meu caso e que passe posteriormente no local de inscrição do evento para pegar o certificado uma vez que eu já tinha pago e tudo estava registrado meu trabalho nos livretos e anais do congressos. A sensação era de um enorme nariz vermelho sobre meu rosto bem ao estilo persona non grata!

Vale destacar a apresentação “cultural” escolhida para os participantes estrangeiros no congresso: a capoeira (manifestação bem típica da capital paulista!). Perguntei se não teria escola de samba com mulheres semi-nuas ou coral de criancinhas pobres de alguma favela das redondezas. Nada era mais caricatural e patético o reforço dos estereótipos preconceituosos da identidade brasileira: mulher (leia-se prostituição), futebol, violência, floresta amazônica e seus indígenas. A fauna cultural brasileira para exportação! Interessante frisar que o mote do congresso não era para ser uma exposição de negócios ou coisas similares, mas um evento acadêmico! (Nunca é demais salientar que nada tenho contra a capoeira e outras manifestações culturais, porém sou contra os reforços ideológicos impregnados de preconceitos e subserviência.)

Para quem conhece um pouco dos corredores da FEA-USP, não é de estranhar o altivo tom imperativo do amor canal com os modelos estadunidenses impregnado de forte ideologia neoliberal. Não retrato um grupo de interesses qualquer dentro da sociedade, mas estou me referindo a uma elite bem-educada e culturalmente bem estruturada e que ajuda a dar as rédeas políticas e econômicas para o restante do país. A questão de qualquer congresso internacional ser falado em um idioma estrangeiro não é nenhuma novidade ou representar algum tipo de problema. Todavia a obrigatoriedade do uso exclusivo de uma língua que não seja a língua nativa onde se realiza o evento é assustadoramente preocupante. As cores ideológicas se avivam neste momento e todas as pessoas de uma hora para outra se tornam falantes (naturais ou não) da língua inglesa em território cuja língua oficial é outra!

“A língua é minha pátria”, já “cantaneava” Caetano Veloso num dos versos de uma de suas canções. As implicações deste fato estão longe de velejarem nas ondas da trivialidade. Qual malefício teria se todos falarem o inglês em terras tupiniquins nos eventos acadêmicos (tendo em vista o ocorrido)? Muitos. A primeiro deles é o descolamento do sentido de nacionalidade. Será que somos nacionalistas apenas nos jogos da seleção brasileira de futebol e quando algum brasileiro é barrado nos aeroportos do chamado Primeiro Mundo? A imposição sistemática do inglês é o castiçal da ideologia neoliberal dominante que prega a globalização com cores do imperialismo cultural estadunidense. Nada é um mero jogo de “cordialidade” dos afáveis e hospitaleiros brasileiros perante os gringos. Nossas raízes paternalistas, escravocratas, subservientes e cartoriais de nossas elites políticas e econômicas emergem como fantasmas parasitando na história da constituição de nossa sociedade.

Segundo ponto se refere aos rumos da universidade pública. Qual é o modelo de universidade pública que realmente estamos construindo? E a pergunta mais crucial: quais modelos queremos construir para a universidade pública para as próximas décadas? Concentrador e parasitário destinado a uma pequena elite mimetizadora das liturgias imperialistas ou democrática e voltada para o pensamento da construção do que Octávio Ianni chamou de “Brasil-Nação”. Quando um evento é patrocinado por uma universidade pública é razoável imaginar que deva ser amplamente aberta a todos os interessados independente de suas particularidades. E o que aconteceu neste evento da RSAI na FEA-USP? Transformou-se num evento privado para um nicho estrangeiro tão reduzido que poucas pessoas não ligadas ao evento perceberam que estava ocorrendo algum tipo de congresso (ainda foi programado justamente no período de recesso das aulas dos estudantes da instituição, ou seja, uma forma de excluí-los de antemão!). O que acredito mover mais a indignação são os eventos que deveriam ser públicos e abertos (tal como não foi o congresso da RSAI) serem ostentados por uma instituição pública nutrida com verbas públicas e que deveria, em tese, se preocupar com a divulgação e dispersão do conhecimento e não segrega-lo sistematicamente.

Terceiro ponto e acredito muito pertinente se refere à questão dos modelos ideológicos impregnados nas universidades. O modelo da FEA-USP é do paraíso telúrico de algum ponto da Suécia ou jardins estadunidenses. Alguém já ouviu falar na “São Paulo of University”? Chegamos ao cúmulo da subserviência tupiniquim ao ler coisas abobalhadas como nome da Universidade de São Paulo traduzida para o inglês, e no evento da RSAI era o que vigorava em todos os cartazes, panfletos e no site oficial do evento. Por sinal, o site do evento, todo redigido na língua inglesa sem nenhuma concessão para outra língua, trazia imagens paradisíacas do Rio de Janeiro induzindo ao visitante das páginas da internet acreditar que São Paulo e Rio de Janeiro possuem os mesmos cenários. Nada contra a capital carioca, todavia é novamente a reafirmação dos estereótipos tão desnecessários para qualquer tipo de evento internacional, principalmente acadêmico. É lamentável que uma das maiores instituições de ensino de Economia da América Latina ao invés de buscar uma identidade particular e de encontro com a realidade brasileira é um mero arquétipo de um modelo impregnado de entulho ideológico do imperialismo cultural estadunidense.

É natural que a produção do saberes não se resume aos prédios e instalações megalomaníacas, mas da capacidade de professores e alunos ser potenciais irradiadores de idéias e conhecimento. Precisamos definir alguns pontos consensuais entre eles é rejeitar o modelo induzido e mimetizador de um estrangeirismo patético e inútil para nossa realidade dentro das universidades brasileiras. Um modelo elitista que pouco colabora para sanear nossas abissais disparidades socioeconômicas. Uma universidade distante da realidade local pouco serve para a sociedade, exceto a manutenção do status quo de uma pequena elite ao custo do erário público. Ao proibir a língua portuguesa num evento dentro de uma universidade pública não é apenas um mero reclame de alguém que se sentiu humilhado perante a situação, mas, sobretudo é o modelo ideológico fascistóide levado a cabo sem nenhuma reflexão crítica ou sequer esteja preocupado com a realidade brasileira (o paradoxo se amplia quando se lembra que justamente o evento trabalhava com as dinâmicas regionais!).

Os sentidos da globalização reinante não é o modelo que privilegia a universalização e promoção do regional, porém é a bota imperialista que esteriliza a diversidade e impõem a colonização cultural com bases estadunidenses como objetivo primaz estendido a todo o globo. Por exemplo, quem definiu a língua inglesa como língua oficial do planeta Terra? Uma coisa é a opção por uma língua ou outra, outro fato completamente diferente é a imposição de uma única língua como o único meio de comunicação perante as pessoas. A minha preocupação em especial são os falsos mitos empurrados goela adentro de milhares de pessoas muito além das fronteiras estadunidenses. A mídia a serviço do grande capital se encarrega alegremente de dispersar na sociedade os entulhos ideológicos em nome da chamada “liberdade de imprensa”.

A pasteurização da cultura é tão perigosa e nociva ao desenvolvimento das diversidades regionais. Desta maneira levamos ao limite a idéia do darwinismo cultural, onde as culturas regionais mais frágeis e os modelos de desenvolvimentos locais são canibalizados pelos ditames dos detentores das rédeas da elite dirigente estadunidense e seus parceiros europeus. A colaboração inter-regional é muito frutífera e deverá sempre ser semeada, todavia a aculturação sem questionamentos ou sem resistências apenas sinaliza a eternidade da mediocridade e a dependência socioeconômica e política. Neste aspecto, a FEA-USP nos deu um belo exemplo de como jamais uma instituição com a envergadura de uma universidade pública tão importante situada em um país com disparidades sociais tão trágicas como a brasileira. A FEA-USP se propôs a fazer um papel tão pobre e subserviente aos estéreis estrangeirismos e se afirmar no posto de patrocinador público do turismo acadêmico inútil.

Ser estrangeiro no meu próprio país é uma sensação que alguma coisa muito estranha perambula na cabeça entulhada de modismos e interesses medíocres e mesquinhos. Estes são alguns dos ingredientes de como jamais deve ser construído as bases de uma verdadeira nação independente e soberana.